Lições da Tailândia

Nesta Copa, cada povo torceu pela seleção de seu país até que, em 2 de julho, o mundo inteiro passou a torcer pelos Javalis Selvagens. Doze jogadores mirins e seu técnico, prisioneiros dentro de uma caverna no norte da Tailândia, passaram a atrair a atenção tanto quanto as seleções nacionais nos estádios da Rússia. Desde então, esse pequeno país asiático deu algumas lições ao mundo.

Mostrou capacidade de gestão para mobilizar recursos, com a solidariedade e heroísmo de voluntários, realizando uma operação que parecia impossível. Venceram desafios quase insuperáveis: localizar os meninos nos labirintos das grutas, alimentá-los a três quilômetros da entrada da caverna e a um quilômetro de profundidade.

Entre os meninos e o mundo externo havia despenhadeiros, rios e lagos, trechos inundados do chão ao teto. A primeira lição é que o salvamento seria impossível sem conhecimento técnico de diversas áreas, sem capacidade de gestão e de coordenação de profissionais de diversas especialidades e nacionalidades.

Outra lição é que a operação só foi possível graças à decisão política dos governantes tailandeses. Sem ela, os recursos disponíveis não seriam utilizados. A desmoralização da política que, muitas vezes, beneficia os próprios políticos, faz esquecer que sem ela as decisões não são tomadas, os recursos não são utilizados ou servem a causas erradas.

A bem-sucedida operação nos ensinou também que os países não aplicam recursos para resgatar milhões de pobres que há em cada um deles, porque as decisões políticas são tomadas com base na moral prevalecente na sociedade.

O salvamento dos meninos na Tailândia exigiu técnicas mais complexas do que as necessárias para educar, alimentar, construir moradias, levar água potável para milhões de pobres. As sociedades não usam a política para mobilizar recursos que salvem os milhões sem-teto, sem comida, sem educação, porque não há um imperativo moral para isso.

A ética induz a política ao resgate de meninos presos em uma caverna, mas tolera a omissão diante da condenação de milhões de outras crianças e adultos à pobreza.

A moral criou um imperativo que leva à mobilização para trazer de volta o Javalis Selvagens e força uma pessoa que sabe nadar,  heroicamente saltar na água para salvar um náufrago que se afoga, mas não a alfabetizar quem não sabe ler.

Todos se empenham para evitar que uma pessoa morra por falta de oxigênio em uma caverna, mas toleram a morte por falta de oxigênio em um hospital. Todos sofremos, diante do risco dos meninos com fome, frio, asfixia na caverna, mas aceitamos a fome endêmica, o frio e a negação de escola e saúde para milhões de meninos que caminham livres em nossos países. Viver na pobreza implica a mesma escassez de uma caverna.

Ainda outra lição é de que o imperativo moral que impele as decisões políticas trata tão diferentemente os condenados na caverna geológica e os condenados na caverna social da pobreza, porque a linguagem passou a defini-los diferentemente. Não se considera como afogado quem fica sem oxigênio por falta de atendimento médico; não se usa resgate para retirar alguém da rua; não se chama escuridão o mundo onde vive um analfabeto, não se considera genocídio a morte de milhões por inanição.

A política decide como e para quem usar a técnica; a moral induz a escolha das decisões políticas; a linguagem é formada e cria a moral de como as pessoas se indignam e lutam bravamente ou se acostumam e caem na omissão. Felizmente, a moral prevalecente salvou os meninos da caverna; mas infelizmente, ela não empurra a política para resgatar os milhões de pobres nas cavernas sociais: do analfabetismo e da deseducação; da desnutrição crônica; da falta de água potável, coleta de lixo e esgoto; da falta de atendimento médico e de acesso à cultura. Talvez, as lições da Tailândia nos levem a mudar a linguagem, a moral e, em consequência, o uso da política a serviço da justiça social. Que o mundo inteiro ou pelo menos os políticos aprendam as lições da Tailândia.

Cristovam Buarque