A pós-modernidade já não me surpreende mais

Carlos-Cartaxo.A relação entre pais e filhos é objeto de estudos em várias instituições de ensino e pesquisa. Eu perguntei a meu filho de 18 anos se ele ia comigo ao ato político por Lula Livre. Ele não se dispôs porque tinha um compromisso, mas não lembrou qual era o compromisso; horas depois lembrou que ia assistir a um jogo de futebol no Estádio. Minha colega, professora de Inglês, me falou que a filha dela é uma ativista nas redes sociais, mas não sai de casa para participar de atos políticos. Uma ex-aluna minha, pesquisadora sobre redes sociais e sobre pós-modernidade também não doa parte do seu tempo, mesmo que seja uma mínima parte, para ir a um ato político de reivindicação e defesa da liberdade e da democracia. O pessoal dos Centros Acadêmicos dos cursos de Comunicação, de Cinema, Relações Públicas, etc., também não foi ao ato de defesa do maior líder político da América Latina, Lula da silva, que é o preso político mais representativo do Brasil diante do mundo, em pleno século XXI. Não sejamos injustos, nesses atos aparecem uns poucos discentes, assim como uns pouco servidores e uns poucos professores que vão às ruas defender um projeto de sociedade justa, igualitária e democrática e, naturalmente, seu mais importante líder. Esses reais representantes da democracia presentes são os militantes que não fogem à luta!

É claro que a direita convicta, os fascistas “pós-modernos”, discípulos do individualismo e do consumo, adoram essa ausência, essa lacuna política, essa formação ideológico debilitada, muito bem representada pela formação da sociedade do espetáculo, conceito crítico bem definido por Guy Debord em “A sociedade do espetáculo”, que caminha na mesma direção da sociedade líquida tratada por Zygmunt Bauman em “Modernidade líquida”; teorias críticas que nos leva ao limite da fluidez de pensamentos e ações. Há muitos colegas, que não entendem que os princípios pós-modernos, na calada da noite, no silêncio dos moribundos, tornam a todos, quase todos, sujeitos embevecidos pelo consumo e pela busca do indefinido. Por exemplo, selecionei duas imagens da internet para expressar esse comportamento pós-moderno que tem, intrinsecamente, o culto ao corpo, ao consumo e ao individualismo como força alimentar da necessidade de demarcar espaço social e poder.

Muita gente não quer nem ouvir a palavra pós-modernidade; mas enlouquece se passar uma hora sem o smartphone. É a colonização fruto da dependência tecnológica, ampliando podemos até dizer dependência virtual. A Pós-modernidade não é uma teoria, não é princípio, é uma condição que o capitalismo nos impôs através da repaginação do capital denominado-a de neoliberalismo. Então, não há como contestar essa condição se você não a conhece, mas consome e não consegue viver sem ela. Conhecê-la é essencial para poder contestá-la, já que se convive com a condição pós-moderna no cotidiano. Contudo, alguns paradigmas teóricos aprisionam pensamentos que não nos permite enxergar tal condição. Então, chegou à hora de descolonizarmos os pensamentos para que possamos ser mais críticos com o neoliberalismo e sua cria, a pós-modernidade, sem sermos prisioneiro dele.

É certo que a cultura digital tem provocado mudanças em todos os meios de comunicação. Essas mudanças têm influenciado diretamente o comportamento social. Será que o consagrado escritor Marc Prensky estava certo quando criou os conceitos de nativo digital e imigrantes digitais, através de um artigo que ele escreveu em 2001? Com base na criação da Internet, que se deu em 1969, na criação da web, WorldWideWeb, em 1990, desenvolvido no CERN por Tim Berners-Lee e a acessibilidade do mecanismo de busca do Google Inc., em 1998, Prensky escreveu livros e artigos focando em um projeto para a educação baseado na era digital.

O quadro desenhado no nosso horizonte e que ainda está sendo colorido é a surpreende condição pós-moderna. Então, o que faz um profissional, professor/a ou qualquer outro, não reagir diante de perdas de direito, diante de degradação das condições de trabalho? O que faz um/a jovem não se preocupar com o seu futuro profissional? Essa condição de estagnação e comodismo, em muitas situações até de descaso, é uma condicionante da sociedade líquida em que é melhor olhar para si, cultuar a exposição gratuita, alimentar o álibi do fetiche, do que pensar no futuro, pensar no próximo e no coletivo. A ideia de que “eu” devo ser o foco das atenções exige a ilusão de que devo estar na vibe da moda e me comportar de acordo com a liquidez que toma conta de uma geração e a faz líquida e escorregadia, destruindo sua identidade, seu futuro e o futuro do próximo, consequentemente, futuro de toda uma geração. Como o culto ao corpo, ao individualismo e ao consumo é uma realidade da condição pós-moderna, esta já não me surpreende mais. E haja vazio, se é que o vazio existe.

Carlos Cartaxo