Asas para voar com a arte

O desejo humano de voar sempre foi exponencial. Ícaro, quem era mesmo? Esse personagem mitológico foi criado de forma ficcional para o ser humano poder dá forma, mesmo que conotativa, ao sonho de voar. Aqui temos a arte nos permitindo voar ou nos dando o direito de voar através da arte ou até mesmo com ela.

Pois bem, no final de 2017, vi e interagi com uma postagem na internet, de um artista plástico de Campina Grande, Paraíba, Brasil, que perguntava sobre a opinião de um vídeo de uma performance. No momento não vem ao caso a performance, mas como ele adjetivou aquela expressão artística. Ele perguntou se era arte, mas ele mesmo respondeu dizendo que não era e que aquilo era uma “merda”, palavra dele.

Diante desse quadro pintado por esse artista, me resta a dúvida: será que ele tem alguma noção sobre história da arte? Será que ele sabe sequer distinguir arte clássica, da moderna e da pós-moderna? A trajetória da arte segue a mesma trajetória da história da humanidade, ou seja, está em constante mutação.  Em muitos casos o processo é de constante transformação. Não obstante essas mudanças, muitos artista ficam apenas focados no fazer e não se dão conta de que o fazer não deve ser apenas um ato isolado, até porque ninguém está totalmente isolado sem interferência do meio que o rodeia. Nesse sentido, o artista é um sujeito, assim como todo mundo, que tem que se atualizar constantemente porque a arte, como a vida, é dinâmica, é um fluxo e refluxo de ser e não ser.

Quando o artista ou qualquer outro ser humano não se atualiza fica refém das mudanças constantes da vida. Estagnar diante do tempo e das transformações do mundo é uma opção suicida. A comunicação é um bom referencial para essa tese. “Quem não se comunica se trumbica”. Esse jargão do animador Chacrinha, Abelardo Barbosa, é a chave para a compreensão de que se isolar quer dizer se comunicar de forma estática.

Eu tenho visitado inúmeros museus e instituições de arte pelo mundo, dentre elas museus de arte contemporânea. Ao se deparar com a arte contemporânea, que prefiro denominá-la pós-moderna, temos um impacto de compreensão e admissibilidade de que “aquilo” é arte. Daí a denominação pelo artista, campinenses, de que essa arte é “merda”. Para compreendermos algo precisamos conhecer e, na maioria dos casos, estudar sobre o tema. Como estamos vivendo um momento de transição entre a modernidade e a pós-modernidade, precisamos de conhecimento sobre como essa transição acontece, o porquê dela acontecer, como os sujeitos se comportam diante dessas mudanças significativas, muitas vezes pouco perceptíveis. Para isso temos que ter humildade para aprender sobre o momento que estamos vivendo e como a arte se situa nesse contexto.

Uma das formas de entender e aprende sobre a arte no contexto pós-moderno além de leituras é visitar museus, galerias, ver filmes, performances e espetáculos. Recentemente visitei o Instituto de Arte Contemporânea de Boston – ICA, EUA, e lá a primeira pessoa a qual me lembrei foi o colega artista campinense. Esse cidadão do mundo da arte, como todos nós, precisa mergulhar no universo artístico que não seja apenas aquele que ele está inserido. É uma questão de alfabetização visual. É a importância de compreender e decodificar os processos denotativos e conotativos que são intrínsecos a arte enquanto expressão comunicativa do ser humano. No ICA há uma exposição de Mark Dion, artista norte-americano, que rompe com as formas tradicionais da arte clássica e usa elementos naturalistas no contexto da pós-modernidade para expressar, através de instalações, sua visão de mundo no final da segunda década do século XXI. Ele buscou objetos de escavações do século XIX, como garrafas, ferramentas, cerâmicas e expôs a vida passada e seus efeitos conotativos no hoje. É um trabalho fruto de pesquisa etnográfica, é um misto de ciência e arte. É um trabalho pós-moderno que tem nos elementos da natureza e do cotidiano a essência do ser humano. Para dizer que essa criação é arte não basta dizer gosto ou não gosto, muito menos adjetivar com palavras indevidas e preconceituosas.

O ICA também tem uma agenda de performances. Aqui vem o que considero mais importante no universo pós-moderno da arte: a arte híbrida. Como escreveu Lúcia Santaella “a comunicação e arte convergem”. Essa tendência contribui para expressar o mundo hoje, a pluralidade e velocidade da veiculação das informações, a manipulação das informações e das formações. A ideologia do consumo e da dependência de algo e até de alguém.

No Brasil temos uma série de instituições que trabalham com arte no contexto contemporâneo e/ou pós-moderno, por exemplo, o Inhotim em Minas Gerais que é um referencial significativo para formação, interação e lazer. No Porto, em Portugal, temos O Museu de Serralves que é um belo exemplo de instituição que quebra paradigmas, renova conceitos e contribui esteticamente para com a alfabetização visual. O Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, Espanha, também engrandece o debate sobre o tema pela riqueza que constitui o seu acervo e por suas belas exposições programadas.

Peça em exposição no Inhotim

Portanto o debate, a leitura e estudos são importantes na formação cidadã, até porque gosto se discute, sim.  E quem tem conhecimento tem vôos mais seguros e precisos sem ser dono da verdade absoluta; até porque o conhecimento e a humildade nos possibilitam entender que toda verdade é relativa, inclusive nos relacionamentos humanos e no universo da arte e da comunicação.

Carlos Cartaxo