Na calçada

Carlos Cartaxo

A primeira infância é marcante para toda criança. Os momentos na escola, família e entre amigos são determinantes na formação do jovem. Lembro que três fases são essenciais à evolutiva do pensamento. São elas: a fase afetiva, aquela em que a criança se apegada aos pais e tem ciúmes de outras crianças, é a fase do peito, da amamentação; a fase perceptiva, em que a criança percebe o seu entorno, vê a tomada de energia e quer colocar o dedo, percebe o sexo do pai e da mãe; e a cognitiva,fase em que se desenvolve o poder de compreensão, por exemplo, entende que a tomada de energia elétrica da choque. Nessa última fase se descobre o entorno de si, é o momento de entender o contexto em que se está inserido,principalmente o universo infantil.

Essas fases citadas acima, vivi em Picuí. Foi lá que a cultural imaterial consolidou a minha formação. Muitos momentos culturais e sociais foram determinantes para o homem que eu sou hoje. Por exemplo, vi um amigo desafiando um outro colega pobre, que certamente estava com muita fome, e, simplesmente,escarrou em um pedaço de pão e o jogou no chão; o outro apanhou e comeu. Essa cena foi tão forte que me marca até hoje. Foi lá, também, que após as refeições eu ouvia alguém batendo palmas lá fora e gritando:

― Tem uma sobrinha de comida?

Muitas vezes as pessoas pediam até a sobra do prato.

Pois bem, o tempo foi passando e cresci sonhando. Dentre os sonhos, um era conhecer a Europa; conhecer a raiz genealógica da minha família; as influências culturais que chegaram à Paraíba oriundas da Península Ibérica. Felizmente já fui várias vezes. Sempre fui a trabalho ou para estudar e, naturalmente, aproveitei para descobrir melhor o velho mundo. Para mim estudo sempre porque estudar é trabalhar. Um trabalho intelectual, mas essencial à sociedade.

Minha última estada no velho continente foi durante os últimos junho e julho. Passei por quatro países: Portugal, onde fiquei estabelecido, Suiça, onde fui me banhar no lago de Zurique; na Holanda, onde fui apresentar o espetáculo teatral “Anayde Beiriz – história a ser contada” em Amsterdam e fui visitar amigos em Lelystad e Pumerend; e fui a Frankfurt, Alemanha, de passagem. De tudo o que me marcou foi a pobreza que cruza as ruas, marquises e viadutos. Esse quadro, diferente do que pensam, não foi criado por partidos políticos, enquanto seres orgânicos da organização social, mas pelo capital. Quando vejo pessoas dormindo na rua, em alguns casos uma família inteira, me dá uma dor no coração. Essas cenas me fazem compreender que o brasil passou por essas fases.Todavia, hoje, estamos muito bem obrigado. É claro que nunca vamos nos conformar com o que temos. É natural que sempre queiramos mais. Contudo, estamos bem melhor que muitos países europeus. Em média, cinco famílias são despejadas de suas casaspor dia, em Portugal,porque não conseguem pagar aluguel. Em 2014 foram em torno de 1.900 famílias despejadas.O índice de desemprego na potente Espanha, em julho de 2015, estava em 22,37%. No Brasil, nesse mesmo período está em 7,5 %. Então, o quadro socioeconômico do Brasil está entre os melhores do mundo.

Essa análise acima, ratifica a tese de que:calçada, onde muitos estão alojados, é lugar para passear e conversar, nunca para oprimir, descriminar; muito menos dormir. Devemos lutar e trabalhar para que famílias não precisem ter como teto as calçadas; nem crianças, na ingenuidade de que quem ainda não tem a evolução do pensamento constituída, joguem pão sujo no chão da calçada, de propósito, para que outras venham comer.  A capacidade humana de fazer o bem, ser ético e solidário deve estar muito, mas muito acima da ganancia do capital, da maldade e da exploração do homem pelo próprio homem.