Carregados de esperança!

Iniciamos na Igreja Católica com o tempo do Advento um novo ano litúrgico, tempo de espera e preparação para a celebração do Natal do Senhor.

No nosso dia a dia nos encontramos em situações nas quais devemos esperar bastante, e muitas vezes não sabemos esperar, somos impacientes, esperar pode resultar um verdadeiro teste para os nervos. Para viver é necessário saber esperar; mas, até quando?

A espera é o tema principal da história de Israel no Antigo Testamento. As promessas de Deus são como um fio que une os acontecimentos particulares criando uma imagem coerente. No entanto, não se pode esperar eternamente. Por isso a história não é eterna. Um dia o tempo deve chegar à sua plenitude. Este é o segundo tema da Bíblia: a plenitude dos tempos.

Na vida cotidiana, frequentemente, nos lamentamos de que o tempo corre veloz. Na imaginação do Antigo Testamento, o tempo aparece como um grande pêndulo que atrasa o curso dos acontecimentos. Portanto, se deseja que se acelere seu ritmo para que venha o quanto antes possível o momento da plenitude.

A história de Israel é também a imagem da evolução de cada um de nós. Na infância as crianças não se queixam de que o tempo corre. Ao contrário, para elas o tempo passa lentamente. Tudo parece que dura muito. A juventude é o tempo das promessas, do futuro. Quando se experimenta que o tempo corre velozmente, significa que já não se é mais jovem, que se começa a envelhecer. Então, já não se espera nada, a vida perde seu dinamismo. Porém, há diferentes modos de esperar.

As crianças esperam alegremente, como devem esperar os cristãos a vinda de Cristo? Entre os primeiros discípulos parece que se manifestou certa impaciência. Esta impressão poderiam dar as últimas palavras do Apocalipse: “O Espirito e a Esposa (quer dizer, a Igreja) dizem: Vem!”… “Aquele que atesta estas coisas, diz: Sim, venho muito em breve! Vem, Senhor Jesus”. (Ap 22,17.20). O livro parece que é do tempo da perseguição de Nero. Nesse momento, o desejo de libertação era grande. Também hoje, muitos que estão sofrendo certamente dizem: “quando virá o Senhor libertar-nos?” Ao contrário, o cristão parece que tem uma paciência infinita, sabe esperar com alegria, não vive impaciente nem aborrecido.

Neste Primeiro Domingo do Advento o Evangelho, parte do último discurso de Jesus aos seus discípulos no Evangelho de São Marcos, nos permite descobrir o que é o Advento, este tempo de alegre espera. São Marcos nos apresenta “a parábola do porteiro que o dono da casa mandou ficar vigiando” (cf. Mc 13,33-37). É uma das parábolas mais modernas e atuais do Evangelho, talvez, mais hoje que no tempo de Jesus. A vida do porteiro num prédio moderno, dos condomínios residenciais da cidade é realmente uma parábola viva para o cristão. Ele nunca deve afastar-se da portaria sem ter um substituto, abrir e fechar as portas, vigiar quem sai e quem entra, cuidar para que não haja invasão de ladrões, enfim, vigiar sempre. Sua vida é uma vida de espera, ou melhor, de “atenção”: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento… Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem… Vigiai!”

A palavra de Jesus é uma luz diáfana para nós. Nos mostra a situação real na qual nos encontramos e nos permite viver nossa existência corretamente, de modo que possamos estar preparados para “que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo”.

Nestas duas primeiras semanas do Advento com os olhos postos na nova vinda do Cristo Glorioso e nas duas últimas semanas com os olhos postos no Natal, saboreamos este tempo de graça, de vigilância ativa, de oração e de silêncio.

“O vigia espera o sol, eu espero o meu Senhor”, diz um cântico deste tempo litúrgico. O Advento é um espaço donde, o coração se dispõe, se prepara para a chegada do Senhor. Encontrará resposta na Noite Santa de seu Nascimento? “Encontrareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”. (Lc 2,12) Ali está Deus. O Menino que nasce interpela-nos e chama-nos a deixar as ilusões do efêmero para ir ao essencial. Não chamará à nossa porta e, uma vez mais, nos encontrará presos ao supérfluo, surdos pelos ruidosos comerciais ou confundidos por aspectos totalmente secundários à sua chegada?

O que hoje esperam as pessoas? Anseia algo além do transitório? Por que, em vez de sentir-se peregrino, com vontade de saltar do sonho aos caminhos da vida, se sente preguiçoso e acomodado, sem metas claras a atingir?

Além de saber esperar, necessitamos de esperança. Mas, como tudo para encher-nos de algo primeiro temos que sentir necessidade disso e esvaziar ou limpar aqueles lugares que estão ocupados ou saturados pela desesperança, o orgulho, a preguiça ou a falta de entusiasmo em nossa fé.

Quanto medo e que insegurança nos produz a crise (politica, econômica e moral) que sacode nosso país. Milhões de pessoas sofrem escandalizadas, o desemprego, a falta de horizontes, a falta de segurança, o descaso com a saúde… O que nós, os cristãos podemos fazer?

Carreguemos a esperança para que, estes cenários obscuros que nos assombram os possamos mudar ou superá-los, partindo da certeza de que o Senhor nos acompanha nessa caminhada.

Não podemos baixar a guarda, em períodos de inclemência, material ou coletiva, temos de ser sentinelas de uma vinda anunciada a séculos e que, tarde ou cedo, se dará: Virá o Senhor. Então resistamos a essa tentativa programada de tirar Deus de toda esfera social. Resignifiquemos o Natal.

Não podemos cair no desânimo e na tristeza. O Advento, se algo nos traz e tem, é uma boa dose de consolação: o Senhor já está logo ali, dobrando a esquina e aí estará ao nosso lado. Partilhará nossas penas e nossos sofrimentos, fazendo-se homem como nós.

Reavivemos nestas semanas prévias ao Natal, as brasas de nossa fé e de nossa esperança viva. Que nossa oração, nestes dias seja mais intensa e mais confiante. Que já, desde agora, ao invés de pensar tanto no “cardápio” da ceia de Natal, reflitamos um pouco mais sobre esse outro “menu” bem diferente que nossos corações e nossas almas, nosso equilíbrio pessoal ou nossa mente necessitam e nos exigem.

Possivelmente, entre o mais importante está o vigiar, esperar Àquele que é um conosco, compartilha a nossa história e destino com a humanidade, segue misteriosamente no meio de nós e estará até o fim dos tempos. Ele é força para vigiar, esperar, confiar e lutar, para seguir carregados de esperança e esforçando-nos por um mundo melhor, por uma humanidade mais fraterna, por horizontes de verdadeira e consolidada paz.

Por Padre José Assis Pereira