Carta a um pai de um excepcional

Pela mesma estrada que o amigo está caminhado eu já passei. Pelas lágrimas que jorram por teus olhos aos meus foram longas companhias.

Pela tristeza imensa diante do nascimento de um jovem portador de excepcionalidade, por muito tempo me fez morada. Tudo isso por não aceitar tal fato, pela minha ignorância, por pequenos tropeços que a vida tende a nos oferecer eu busquei raiva de mim mesmo e fui infeliz.

Deus na sua infinita bondade entrega palavras simples para que possamos decifrar, nos dar um pouco de batalha, para que possamos compreender que a vida não se faz apenas por melodias, mas também por sacrifícios e oração.

Quantos são mais felizes e vivem bem, quantos choram a perda de um filho em plena capacidade material e espiritual de forma repentina, e procuram palavras que consolem e explicações diante deste fato.

Quantos vivem na infelicidade total, em decorrência de ações que o mundo de forma maldosa implantou em seus lares, trazendo as dores sem igual, diante das drogas que sepultam em vida uma família que era só felicidade.

A vida é tão esférica quanto uma bola, no qual estamos diante de ações que fizemos e de respostas por estas ações, nada se faz sem resposta e nada é deixado em branco sem que haja uma palavra para compreender.

Eu sei o quanto quis ser ruim comigo mesmo, pois diante de uma excepcionalidade que brotou em minha casa, quis fazer decompor as minhas crenças, e passar a ser inimigo do Criador e defensor da arte maior que é o amor.

Fui cruel nos meus pensamentos, e por que não dizer que incorporei o espírito da maldade, a ponto de querer trocar o meu filho, minha luz, por alguém que tivesse a mínima noção de saúde material, pois não tolerava a hipótese de conviver com a mão de Deus.

Talvez hoje eu tivesse pagando caro, talvez o que me fosse contemplado pela troca tivesse transformando os meus dias de felicidade em tempestades, que iriam repetir em minha mente até a consumação da minha caminhada.

Deus é completo em toda sua criação, pois sabe coordenar os caminhos de todos. É capaz de saber a cada instante que o meu calçado não pode ser quarenta, quando os meus pés são pequenos e se sentem satisfeitos com trinta e sete.

Tudo de bom e de ruim que cruzar o seu caminho eleve sempre a prece aos céus num ato de mais profundo respeito e agradecimento, pois atrás há milhares que choram o desespero, e imploram para puderem viver um dia a mais.

Rafael Holanda