Chamados e enviados

Voltemos nosso olhar neste Domingo em primeiro lugar para o profeta Amós (cf. Am 7,12-15) que se nos apresenta como antecedente do que significa ser chamado e enviado por Deus para uma missão. Ele é tão diferente do sacerdote Amasias que quer proibi-lo de profetizar. Amós é um homem simples, nele não há nenhuma sombra de interesse pessoal ou busca de beneficio e vantagens pessoais. Nem sequer está na tradição de antepassados profetas: “Não sou profeta nem filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo figos”. Chamado por Deus para viver de outra maneira: “O Senhor chamou-me quando eu tangia o rebanho, e o Senhor me disse: Vai profetizar para Israel, meu povo”.

Assim o profeta se nos apresenta sempre como alguém que teve uma experiência pessoal de Deus. A vocação profética é “irresistível”: “Fala o Senhor, quem não profetizará?” (Am 3,8). É uma paixão que nasce da escuta da Palavra de Deus e da experiência mesma de ter sido visto, chamado por seu nome, reconhecido pelo olhar de um Deus que quer comunicar-se com as pessoas através das palavras humanas de seus escolhidos. Deus toma a iniciativa e sai ao encontro do homem para dar-lhe uma missão que lhe configura. É mais que uma tarefa, é uma nova identidade que afeta toda a pessoa do profeta.

Nestes tempos estamos sedentos de fontes genuínas, necessitados de verdadeiros profetas, de pessoas chamadas por Deus, enviadas com a missão de proclamar a mensagem divina. Homens fiéis que não se deixam levar pelos seus próprios interesses, que não pretendem promoção pessoal, estar na “mídia”, atraindo o aplauso da multidão para si mesmo. Homens que não traiam Aquele que lhes enviou que lhes confiou a delicada missão de fazer ressoar nas mentes e nos corações a sua Palavra.

O papa Francisco disse que “a sociedade necessita mais de nossas obras do que de nossas palavras”. A credibilidade do profeta, do mensageiro, está no seu estilo de vida: sobriedade, serviço, simplicidade e entrega. Um mensageiro que transmite com fidelidade, despojado das suas opiniões, sem buscar seguranças de poder, de prestígio ou de benefícios. Assim a mensagem será como água límpida e pura a saciar os corações sedentos.

O evangelho de hoje (cf. Mc 6,7-13) dirige nossa atenção para o chamado e o envio em missão dos Doze. O duro enfrentamento e a rejeição da Boa Notícia na terra de Jesus não foram suficientes para intimidá-lo ou paralisá-lo (cf. Mc 6,1-6), evangelho do Domingo passado. Pelo contrário: “Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando”. Marcos mostra o Messias plenamente mobilizado, com novas estratégias. A primeira é percorrer as redondezas e ensinar nos povoados, pois a partir de agora Jesus não ensinará mais nas sinagogas como fazia, e os Doze também serão enviados às casas. Daqui para frente, as sinagogas praticamente desaparecerão do evangelho de Marcos, sendo recordadas apenas como lugares em que no futuro, os discípulos serão torturados e expulsos.

Outra estratégia de Jesus é buscar reforços para o anúncio do Evangelho, ou seja, engajar os Doze na sua mesma missão: “chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois” (v. 7). Jesus é o enviado do Pai, agora Ele envia os Doze “dois a dois”, isto é, como uma comunidade em saída, para ir ao encontro das pessoas, essência do trabalho missionário.

Os Doze recebem de Jesus “poder sobre os espíritos impuros” (v.7), deu-lhes autoridade para libertar do mal. Os discípulos recebem, pois, aquilo que o próprio Jesus possui, ou seja, a autoridade para libertar as pessoas de tudo aquilo que as aliena, oprime e despersonaliza. Nunca é de mais recordar que o ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Todavia, há tantas situações, geralmente provocadas pela ganância humana, que desfiguram essa imagem. No tempo de Jesus, atribuía-se aos “espíritos impuros” a iniciativa dessa desfiguração. Cabe aos discípulos devolver o ser humano à imagem e semelhança de quem os fez.

O que o enviado leva consigo é apenas a Palavra de Deus, a mensagem do Evangelho: “recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (vv. 8-9). O suficiente e o necessário para uma longa viagem, característica da simplicidade e do despojamento dos primeiros evangelizadores itinerantes. Para ir de aldeia em aldeia, contando com a hospitalidade do povo, não deviam se sobrecarregar do supérfluo. O mais importante é a mensagem, a evangelização e não o seu agente, ou o que seria pior, o seu aparato externo. Hoje, infelizmente com certa frequência, é mais importante as exterioridades, o “parecer ser” do que o próprio “ser”.

“Se em algum lugar não vos receberem nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles!” (v. 11). A rejeição pode se fazer presente, como aconteceu com o próprio Jesus. O gesto de sacudir a poeira das sandálias é cultural, e significa a ruptura total com quem rejeitou a Boa Notícia na pessoa dos discípulos. Os Doze têm consciência de terem feito o que deviam fazer, e não podem ser responsabilizados pelo que acontecer a quem rejeitou a Boa Notícia. Para ser discípulo e anunciar o evangelho deve-se contar também com a rejeição.

Como Deus chamou Amós e os profetas e os enviou a falar em seu Nome assim Jesus chama e envia os Doze em missão. Os Doze são o núcleo primordial da Igreja, também ela chamada e enviada a continuar a missão de Jesus e dos Doze.

Da evangelização itinerante do tempo de Jesus demos um salto enorme para a mídia, internet, etc. esses meios exigem profissionalismo, recursos econômicos, tecnologia etc. o grande desafio que se nos apresenta é como conjugar as duas coisas? Quais os aspectos das normas de Jesus continuam vigente? Certamente a coerência da vida, o despojamento, a pobreza e a total confiança em Deus deixa intuir a força vinculativa da Boa Nova. O que atraiçoa a beleza da mensagem do Evangelho é a falta de coerência. Os interesses pessoais que pervertem o dinamismo da mesma proposta.

É urgente a missão do anúncio do Evangelho. Temos de assumir que esta é a hora da evangelização, hora de assumir nosso discipulado e apostolado, de nos por a caminho, deixarmos o nosso lugar de conforto, para nos tornarmos uma “Igreja em saída”, uma Igreja composta por homens e mulheres chamados e enviados, dispostos a correr o risco até de “sujar-se” no contato com as realidades do mundo. É o que o Papa Francisco não se cansa de propor.

Padre José Assis Pereira