O caminho se faz caminhando

Em pleno centro da Páscoa voltamos ao cenário da última ceia. É neste contexto que Jesus à mesa com os seus discípulos faz um discurso de despedida (cf. Jo 14,1-12).

Naquele momento os discípulos estão perturbados porque percebem que Jesus vai a caminho da morte e não compreendem a razão, temem ser abandonados. Jesus conforta-os: “Não fiquem tristes… não se perturbe o vosso coração.” (v.1) Explica-lhes o sentido da sua morte: “Vou preparar-vos um lugar!” Transmite-lhes uma alegria que também nos enche de esperança, a nós: “Na casa do meu Pai há muitas moradas!” (v. 2)

O apóstolo Tomé se expressa com sinceridade: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (v. 5) A resposta de Jesus é direta e determinante: “Eu sou o caminho… Ninguém vai ao Pai senão por mim. E o Senhor acrescenta: “Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai.” (vv.6-7)

Quantas vezes temos repetido estas palavras, tentando penetrar em seu significado! Temos a impressão de haver conseguido nosso propósito colocando nosso interesse no âmbito do conhecimento, quando na realidade se trata de experiência de vida, de amor interpessoal. Algo assim como se Jesus Cristo dissera: Se me amasseis, amaríeis também o meu Pai. Nós somos capazes de distinguir estas duas operações, conhecer e amar, mas para o Senhor trata-se da mesma realidade.

Quando nos detemos a contemplar estas coisas é possível que vislumbremos a unidade que existe entre as duas coisas, conhecer e amar, como o fundamento para uma verdadeira relação interpessoal, a pessoa de cada um de nós com a do Senhor.

“Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” (v. 8) O pedido do apóstolo Filipe prolonga o diálogo iniciado por Jesus, respondendo a Tomé. As palavras do Senhor deixam entrever certo desencanto ou censura, de Jesus: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que dizes: Mostra-nos o Pai?” (v. 9)

A questão da identidade de Jesus com o Pai é fundamental, mas não como algo teórico, e sim

como a realidade na qual estamos implicados todos nós, dado que o que o Senhor busca é fazer-nos cair na conta de que nossa vida não segue um caminho paralelo à sua, mas sim que se trata do mesmo caminho, porque não há outro caminho: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (v.6).

O Senhor se abre com seus apóstolos, lhes abre o coração. Ele é o caminho que liga a terra ao Céu. Caminho, itinerário que se tem que fazer para chegar de um lugar a outro. Jesus é para nós o caminho para chegar ao Pai.

A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus foram realmente um caminho que Ele percorreu para voltar ao Pai, de onde saiu. Seu caminho foi fazer a vontade do Pai e, ao mesmo tempo, mostrar-nos o caminho que deveremos percorrer se quisermos chegar como Ele ao nosso Pai-Deus.

O caminho, para nós cristãos é o ideal da conduta cristã, a maneira cristã de viver, pois o cristianismo é indicado simplesmente como “o caminho”. Os primeiros cristãos eram chamados “os do caminho”, antes de começar a ser chamados de “cristãos”.

Também nós, discípulos e discípulas de Cristo hoje, necessitamos fazer de nossa vida um duplo caminho de purificação interior e de pregação do evangelho de Jesus. Jesus é nosso caminho e nossa obrigação cristã é identificar-nos e viver em comunhão com Ele, enquanto vivemos e atuamos neste mundo. Assim o fizeram os primeiros cristãos, os “do caminho”. O compromisso de anunciar Jesus, “o Caminho, a Verdade e a Vida”, é a tarefa principal da Igreja.

Caminho é metáfora, mas Verdade e Vida são experiências humanas. Frente às ideologias dominantes, Jesus é o Caminho que aponta para a segurança e a confiança. Frente à mentira e falsidades, se levanta a Verdade de Jesus sustentada em Deus e não como no mundo, apoiada nos interesses de alguns. Frente à morte, às vezes pregada como avanço da ciência (o aborto, as experiências com embriões humanos, a eutanásia ou a morte assistida) Cristo nos recorda que seu projeto é um plano de vida e que ninguém, exceto o Pai, pode considerar-se dono ou Senhor da vida.

Os Padres da Igreja gostavam de comparar nossa vida cristã com a caminhada. Uma das antiquíssimas expressões que definem nossa vida é precisamente a do “caminho”. O cristianismo não é uma teoria sobre o cosmos, não se pode reduzi-lo a noções doutrinárias. É o caminho da nossa vida.

A metáfora do caminho expressa o dinamismo da vida. É um viver que vai levando a pessoa à perfeição e acabamento de si mesmo. Mas o seu termo pode ser êxito ou insucesso. O êxito é a maturidade, o pleno desenvolvimento das potencialidades. O insucesso, a decadência, a ruína. Jesus aponta a direção em que o ser humano se realiza: o caminho que Ele próprio abriu e traçou, o caminho da solidariedade com as pessoas e da entrega, o caminho do amor crescente. Aí se encontra o êxito da vida, a vida definitiva. Todo outro caminho leva ao nada, à morte. A meta é a máxima solidariedade com as pessoas, dando-se inteiramente. Nesse amor encontra-se com o Pai. “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.” (Jo 14, 6)

Cada ser humano é um caminhante, como diz o poeta espanhol Antonio Machado: “caminhante, não há caminho, o caminho se faz caminhando”. Efetivamente estamos sempre a caminho de nós mesmos. Fundamentalmente, ou nos realizamos ou nos perdemos. É preciso deixar-se guiar por esta Verdade e segui-lo.

Por Padre José Assis Pereira