OS LIVROS E A LEITURA NUNCA ABANDONARAM PICUÍ

Existe uma unanimidade, de que os livros são benéficos, são importantes e essenciais para uma vida com êxito. Porém, vemos que as pessoas leem cada vez menos, não valorizam a cultura e arte como divertimento e esta situação tende a piorar com o hábito adquirido junto às redes sociais.

A experiência demonstra que o gosto pela leitura começa na infância; eu mesmo comecei a gostar de ler com sete ou anos, a partir de gibis e dos livros didáticos que existiam em minha casa. Desde cedo eu me cansava facilmente de um livro menos do que de qualquer outra coisa e considerei a leitura como um bom divertimento. Mas observo que meu irmão não era assim, meus amigos próximos só liam esporadicamente. Assim, se considero um mistério amar os livros e a leitura desde cedo, penso que é possível colocá-los em nossa vida de maneira consciente enquanto adultos, criando um hábito para a vida inteira, como o fez Abílio César que certamente viajava no interior de sua biblioteca.

Mas ao chegarmos à maioridade não existe desculpa para que as pessoas sensatas desprezem a leitura e os livros. Se pensarmos bem, é possível encontrar uma gama de vantagens neles, entre as quais um entretenimento  de qualidade, pois um bom livro multiplica a nossa realidade limitada, já que nos permite penetrar nas épocas distantes, nos hábitos exóticos, em experiências de vida inesquecíveis. Em termos de sabedoria, ele não falha, pois quando o romance é bom, é possível ser seus diversos personagens e aprender por meio de seus erros e acertos. Com relação à saúde mental, pesquisas demonstram que o hábito da leitura fortalece os neurônios e retarda as terríveis doenças debilitantes que nos afligem na velhice.

De uma maneira inusitada, os livros podem nos dar conselhos que os amigos nunca o fariam !! Há em todo livro um diálogo entre ele fala e a alma do leitor. Se os livros não podem mudar o curso de uma existência, são capazes de trazer inúmeros benefícios que todos tem consciência, mas que ficam paralisados na hora de ler um texto. E eles nos forçam a meditar, a melhorar nossos julgamentos, sem falar que podem causar grandes emoções ao sabor da história que estamos lendo. É muito raro que um livro seja tão ruim que não possamos tirar algum proveito dele.

Há de convir que quase todos os outros prazeres da vida são melhores do que os que os livros; conversar com amigos, namorar, ganhar dinheiro, passear, tudo isso é muito melhor do que ler, mas com uma diferença essencial: não ocorrem com frequência, seu aproveitamento pleno varia com a idade e muitas vezes dependem da vontade de outrem para se concretizar. Já os livros ganham pela constância, pois estão sempre ao nosso alcance, não reclamam se não são consultados ou fechados no momento que desejamos. Se os livros trazem para a maioria que os folheiam um prazer mediano, esta sensação tem uma duração muito maior do que as outras coisas boas da vida.

Por isso é que fica perplexo com aquelas pessoas que tem bagagem acadêmica, tem inteligência, mas que se abstem da literatura e dos livros em geral, desprezando uma felicidade tão fácil e módica. Renunciam à leitura de maneira inconsciente e injustificável, porque todo mundo concorda de que o hábito da leitura só nos traz benefícios. É uma unanimidade entre os doutos de todos os tempos que um homem sem leitura é apenas sombra porque é a cultura e a palavra que nos afastam dos outros animais; o livro é a extensão da memória, é o transmissor da nossa civilização. Toda glória do mundo estaria esquecida se não tivesse sido registrada nos livros e a civilização não teria evoluído sem sua continuidade nos textos essenciais como a Bíblica, o Código de Hamurábi, os escritos de Aristóteles… Se observarmos bem, o essencial para a conclusão de um curso universitário, que todos valorizam, está num punhado de livros !!

Certamente devemos ler em primeiro lugar os melhores livros, senão nunca terão a oportunidade de lê-los, se nos recordarmos da finitude da vida humana e a quantidade de livros que existem no mundo. Para muitos sábios da atualidade, o ideal de uma cultura democrática não-elitista deu errado porque o nível de cultura da massa é cada vez mais baixo. A diminuição do hábito da leitura é um sinal muito claro disso. Estava certo o grande Voltaire, a quem nossa liberdade atual tanto deve, de que “Os livros governam o mundo, que quando uma nação começa a pensar é impossível detê-la”.

Pensem nisso, caros conterrâneos, e façam do hábito da leitura, do amor pelos livros, uma meta tão importante quanto ganha dinheiro e crescer na vida. Sem o conhecimento e  a sabedoria que se pode obter através dos livros, dificilmente teremos uma noção correta dos nossos objetivos neste mundo e até mesmo de nós mesmos.

O filósofo Zênon foi consultar o oráculo a fim de saber como viver da melhor maneira possível, e o deus respondeu que teria de igualar-se aos mortos. Ele entendeu muito bem e passou a ler os autores antigos. Por sua vez, o nosso conterrâneo genial Ariano Suassuna avisa que quem gosta de ler não morre sozinho !! E com a promessa de vida mais longa para todos,  uma velhice sem a companhia dos livros pode se transformar o tédio num pesadelo em que se deseja a morte antes do tempo, como o velho relógio da Matriz de São Sebastião que parou de tocar sem quê nem para quê.

Álisson Pinheiro