Há quem aproveite o tempo presente em Picuí?

Na última vez que estive na terrinha reencontrei por acaso um velho amigo e a nossa conversa estendeu-se por horas em meio às delícias da comida regional do restaurante Beira Rio. Comentamos inúmeros fatos do passado que vivenciamos em Picuí, sob um cenário que se extinguiu junto com a adolescência comum. Ele me passou a impressão de que,  se o nosso passado foi satisfatório e feliz, o futuro parecia sombrio devido à polarização política atual e uma suposta decadência que teve início depois que nos tornamos adultos, só nos restando o consolo e a proteção de Deus. Será que ele tem razão? Penso que não.

As pessoas que tendem a exaltar o passado feliz da juventude ao mesmo tempo em que temem o futuro que nunca chega; é raro estarmos em nós mesmos, no presente, já que o medo, o desejo, a saudade e a esperança levam-nos na direção do passado e do futuro. Poucos conseguem recordar que estão presos no agora e não no ontem ou no amanhã. As pretensas delícias do passado são torturantes, a incógnita do futuro é deprimente enquanto que, entre os dois, o presente pede em desespero para “sair desse imprensado”.

Por sorte é que existem algumas truques que podem nos transportar para o aqui e agora quando estamos querendo nos dispersar. Uma ação poderosa é escutar com atenção a pessoa com quem estamos falando, olhando nos olhos, ao invés de deixar que nossos pensamentos se dirijam para problemas e preocupações momentâneas, pois mesmo conversas que achamos desagradáveis podem ser valiosas para nossa ligação com o mundo. Preocupar-se com a aparência física ou com a impressão que estamos passando ao conversar também é outra forma de fuga do presente que pode ser combatida com autocrítica vigilante. Também é positiva a atitude de observar as coisas sem formar uma opinião a respeito, sem julgar ou condenar o nosso interlocutor, pois, ao encontrarmos pessoas negativas ou passando por maus momentos poderemos ter a chance de exercitar a empatia em favor de quem não tem a habilidade de viver o momento presente como nós; aceitar as experiências da vida sem julgamento muda a resposta do cérebro à tristeza, ajudando-o a se recuperar mais rapidamente.

A sabedoria oriental enfatiza a objetividade pessoal no que se quer, a não permissão para que vaguemos por assuntos que não escolhemos, centrar a mente no que queremos pensar, perceber se o nosso discurso está condizente com nossas atitudes, concentrar-se no que estamos fazendo, saber ponderar, provar e suportar cada acontecimento no seu tempo, sem nos preocuparmos com o resto, como se existissem gavetas em nossos pensamentos com ordem de prioridade para serem abertas. Estas atitudes, que podem ser fortalecidas por meio da meditação, cujas técnicas são fáceis e estão disponíveis em vídeos no youtube (em Picuí existem lugares maravilhosos para reflexão e meditação, como os  elevados ao redor da Capela do Alto do Cruzeiro e do monumento a Felipe Tiago Gomes, e até os passeios nos caminhos redescobertos pela Associação Trilhas na Caatinga).

Todas estas atitudes nos ajudam a viver o aqui e agora, afugentando expectativas e medos, encarando estas emoções negativas como tempestades inevitáveis e previsíveis. Também podem servir de alerta com relação ao ato de se ter uma justa proporção na atenção dedicada ao presente, passado e futuro, para que um não prejudique os outros, haja vista que alguns vivem demasiadamente no presente (os levianos), muitos no passado (os saudosistas e sofredores), outros vivem demais no futuro (os temerosos), mas são pouquíssimos os que mantem a justa medida!

Façamos com que o dia de hoje valha a pena ser lembrado, o que só pode acontecer vivendo com alegria o momento presente da maneira mais serena possível. Se esta dádiva nos for concedida, peçamos a Deus sabedoria para percebê-la e valorizá-la, desfrutando de um presente tranquilo e encontrando satisfação nas menores coisas, sem ansiar pelas alegrias imaginadas do passado ou preocupar-se com um futuro sempre distante e incerto.

Viver no presente é a nossa única chance de felicidade, como sintetizou o romano Marco Valério Marcial nestes versos rabiscados há quase dois mil anos:

“O que faz a vida prazerosa é está feliz com o que se é, não ter medo do último dia, nem ficar esperando-o”.

Portanto, satisfeitos com o presente, evitemos as vãs preocupações com o passado e com o futuro, sempre lembrando que o ontem é passado, que o amanhã é um mistério e que somente no dia de hoje é que se vive a vida. A Festa de Janeiro que se aproxima é uma grande oportunidade de praticarmos a arte de viver no presente !!

Por Álisson Pinheiro

Álisson Pinheiro é Natural de Picuí-Pb, residiu também em Cubati e Baraúna, tornando-o um autêntico filho do Seridó e do Curimataú paraibano. É formado em Direito pela UFPB, com Pós-Graduação em Direito do Trabalho. Trabalha no TRT-AL onde vive na capital Maceió.