Os nossos antepassados não tiveram medo

De todas as nossas fraquezas espirituais, o medo é o que mais afeta o bom senso, porque é contagioso e se espalha com a rapidez da luz. Não são poucas as pessoas que “enlouquecem” de medo, que chegam a ter alucinações diante de um pavor imaginário, já que o medo do perigo sempre é muito pior do que o perigo real. Observem a questão da vida que perturbamos com a preocupação de morrer, que nos apavora, enquanto que atormentamos a morte com a preocupação de viver, algo que muito nos aborrece. Existem outros medos mais próximos, como de dentistas, de assaltos na rua, de cachorros loucos; eu mesmo sentia medo quando tinha insônia e escutava o relógio da Matriz de São Sebastião soar meia noite com seu badalar mágico (isso só depois que assisti a um filme de Zé do Caixão no Cine Guarani).  

Um efeito maléfico do medo é fazer com as coisas não pareçam ser o que são de verdade; parece até que as coisas produzem maiores efeitos de longe que de perto, igual à situação que comumente sentimos de temer mais as doenças quando estamos bem de saúde do que quando estamos enfrentando uma grave enfermidade. Pior ainda é o medo antecipado, já quem sofre antes do tempo sofre mais do que o necessário; nestes casos, o pavor expulsa de nós todo o bom senso que se deve ter nos momentos difíceis, permitindo que vivamos em perene angústia.   

É preciso sempre recordar a grande coragem que tiveram os nossos antepassados que vieram residir no Seridó Paraibano sem que existissem estradas construídas, automóveis, vazantes ou açudes, deparando-se com um excesso de terras carrascosas repletas de espinhos, onças, indígenas hostis e cobras peçonhentas. Se tivessem medo não teria vindo nem enfrentado tão graves perigos, mas eis que enfrentaram os obstáculos e conseguiram transmitir-nos seus genes valorosos.  

Penso que o medo pode nascer tanto da falta de inteligência quanto da falta de coragem; mas é certo que, até para ter medo, é preciso ter um fiapo de coragem. Nossos ancestrais vieram corajosamente, com a garra e intuição de que no outro lado do medo está a liberdade radiosa.  

Para os que são afligidos pelo medo, vale lembrar que ele nunca está no perigo, mas em nós mesmos. O dano mais sentido é que o medo do dia de amanhã impede que se viva o dia de hoje com a leveza necessária, uma das maiores marcas da sabedoria. No fundo, acreditamos com facilidade naquilo que tememos e desejamos, fazendo com o que o temor do perigo seja pior do o perigo mesmo. Pensem nisso, prezados conterrâneos.  

Por Álisson Pinheiro

Álisson Pinheiro é Natural de Picuí-Pb, residiu também em Cubati e Baraúna, tornando-o um autêntico filho do Seridó e do Curimataú paraibano. É formado em Direito pela UFPB, com Pós-Graduação em Direito do Trabalho. Trabalha no TRT-AL onde vive na capital Maceió.