A SOLIDÃO NÃO É FERA NEM DEVORA NINGUÉM 

A SOLIDÃO NÃO É FERA NEM DEVORA NINGUÉM 

Cuido do meu  pai desde que a saúde dele ficou abalada há pouco mais de dois anos; ele é cardíaco, diabético e tem os rins que não estão funcionando bem. Quando era jovem, estava sempre disposto, desempenhando funções que demandam energia. Hoje em dia, no alto dos seus 81 anos, ele só consegue dormir e fazer as necessidades básicas, pois o vigor de outrora declinou irremediavelmente, diante do tempo e das doenças. Mas o que me chama mais a atenção é o seu estado de completa solidão, sem outros parentes e amigos que o visitem ou façam uma simples ligação telefônica. Os anos vão consumindo as pessoas que amamos, mas é a solidão que se avulta, capaz de cortar o coração daqueles que acham esse estado insuportável. 

Contudo, penso que a solidão individual de cada um começa a partir do momento em que se chega à fase adulta, pois os amigos da juventude vão “sumindo” devido as suas profissões, casamentos, idiossincrasias mutantes, e até porque ninguém tem tempo de estar junto como antes devido ao corre-corre diário. Pouca gente percebe que a vida adulta já implica numa solidão automática que somente alguns poucos sabem aproveitar. Porém, a maioria da gente passa quase toda vida fugindo do isolamento, sem perceber que é na solidão que quase tudo se realiza: um invento, os “aplicativos” úteis, a escrita de um clássico da literatura, o trabalho bem feito e uma infinidade de outras coisas. De fato, a solidão é a mãe da sabedoria, pois nada  pode ser feito sem ela, verdadeira inspiradora dos poetas, criadora de artistas e animadora das mentes geniais.

A questão eterna é que a massa dos homens é e sempre será obtusa, que viverá fugindo da solidão; e mesmo se for obrigado a conviver com ela, desperdiçará todo esse tempo precioso- tão somente -com farras, programas de TV, filmes medíocres e tantas outras formas inferiores de passar o tempo.  Qualquer um que tenha lido os autores clássicos saberá a qualidade das sensações que Sócrates experimentava para aproveitar as suas horas livres, enquanto que a maioria das pessoas se distrai nas redes sociais ou com seus cachorros !! Tudo de importante na vida exige reflexão e paciência, tesouros somente obtidos na solitude;  Com a solidão recuperamos o gosto pelo silêncio e pelo domínio do tempo, riquezas que a vida em sociedade nos priva. Por isso, sou da opinião que a verdadeira independência pessoal depende bastante de ter passado pela solidão, que foi convertida pela civilização num dos bens mais preciosos para a alma, mas que poucos se dão conta !! 

E esse “problema” da solidão só faz aumentar à medida que as pessoas tendem a viver mais, devido às conquistas sociais e científicas que enlargueceram a vida humana. Daí é que todos nós devemos “treinar” diariamente para esta vida solitária que se aproxima, através da adoção dos hábitos relevantes, como a leitura, o gosto pela arte, pela escrita e pela boa música. Uma velhice seja bem suportada requer que seja pactuada com a solidão, pois quanto mais envelhecemos é preciso ter o que fazer, incorporar hábitos espiritualmente prazerosos, que se mostrarão essenciais para afastar a insipidez e mal estar que a ociosidade improdutiva pode acarretar.  

Um pensador escreveu que “aquele que conhece a arte de viver consigo próprio ignora o aborrecimento”, mas a realidade é que as pessoas ficam deprimidas depois que se aposentam. Considero um felizardo aquele que, na velhice avançada, conserva o amor pela leitura e pela cultura em geral; a coisa mais importante que existe, na maturidade, é saber pertencer-se, preencher  a solidão pessoal com passatempos instrutivos, dedicando o tempo livre a tarefas espirituais e intelectuais, se não puder ou não apreciar viajar.  

Compreendendo a marcha do tempo, é preciso, com antecedência, dizer adeus aos compromissos que nos prendem aos outros e nos distraem de nós mesmos; não se iluda, caro leitor, imaginando que alguém o procura: procuram-no tendo em vista o seu próprio interesse e o que poderás fazer por ele !! E assim, o nosso precioso tempo livre é “sequestrado” pelos mais mesquinhos interesses alheios enquanto estamos produtivos.  

Observem que, quando estamos rodeados de gente, tendemos a seguir as crenças alheias para não romper a dinâmica do grupo; neste sentido, estar só significa abrir-se ao pensamento próprio e original. Por isso é que um filósofo defende a tese de que a sociabilidade de muitas pessoas se deve a incapacidades delas de suportar a solidão e, nela, a si mesmas !!  Noticiam que o ex presidente Lula está lendo mais, sem atinarem que isso se deve à solidão que lhe foi imposta pela prisão, uma situação verdadeiramente inédita para ele que sempre viveu rodeado de pessoas; sem querer, a solidão da prisão levou-o para si mesmo, algo que lhe era negado no tempo que vivia livre, mas sob os holofotes.  

O tempo passa tão rápido que viver sem anos ou dez parecem ter a mesma medida para os que ficam e que nos amam; esta relatividade do tempo vivido faz crescer o significado de um tempo bem aproveitado. Os antigos já alertavam que se pensarmos que cada dia é o nosso último, aceitaremos com gratidão àquele que não mais esperávamos, que em todos os nossos atos, ditos e pensamentos, procedamos como se houvéssemos de deixar a vida em poucas horas, e de que devemos viver de maneira plena a vida que nos resta, pois breve não seremos mais que cinzas, sombra e fábula. Por isso, procuremos com antecedência tempo para estar conosco mesmo, treinemos desde já o hábito de preencher a solidão com passatempos úteis, instrutivos e prazerosos, pois grande parte dos nossos males reside na incapacidade de ficarmos sozinhos, na companhia de nós mesmos. Certamente não existe tarefa mais importante do que saber pertencer-se, fazer da própria companhia um fato de contentamento e de crescimento pessoal. 

Faço apologia da solidão que, para mim, tem o significado evitar os conflitos e dissabores a que muitas vezes uma vida social intensa provoca, e para poder ter uma vida frugal, de poucas necessidades, que quase sempre só é possível vivenciar numa vida retirada. Considero que a única coisa que nos pertence de verdade é o tempo livre, e cuido de utilizá-lo com o que acho que não vale à pena, mas sem excessos.  

Conta-se que os antigos egípcios costumavam, em suas festas, colocar num lugar de destaque o esqueleto completo de alguém que já morreu, como essa imagem da morte lhes gritasse: bebe, vive e goza, pois serás assim depois de morto !! Por isso, alerto a todos os leitores do nosso amado portal, conterrâneos ou não, sobre essa necessidade de uma vida equilibrada, pois a velhice chega acompanhada com uma solidão pesadíssima que pode antecipar a morte se não for bem administrada no rumo do saber, da espiritualidade e dos hábitos que conduzem à saúde, tanto física, quanto mental. 

Álisson Pinheiro é Natural de Picuí-Pb, residiu também em Cubati e Baraúna, tornando-o um autêntico filho do Seridó e do Curimataú paraibano. É formado em Direito pela UFPB, com Pós-Graduação em Direito do Trabalho. Trabalha no TRT-AL onde vive na capital Maceió.