Antônio Henriques Neto: Um Poeta do Nordeste

É certo que sobre a terra, antes da escrita, dos jornais e das redes sociais, existiu a poesia, uma arte ao alcance de todos, pois basta um lápis e papel ou um teclado acoplado a uma tela para compor uma rima. Porém, essa simplicidade é misteriosa porque o dom da poesia não se encontra com facilidade; mas para a alegria e sorte da amada terra picuiense a poesia sentou praça e ganhou uma grande dimensão através do dom inato do poeta Antônio Henriques Neto que cantou e exaltou nossa terra com um amor e beleza  incomparáveis.

Nascido em 1923, na zona rural do nosso município, era o mais velho de sete irmãos, o que lhe deve ter causado muitas canseira nas lides do campo, pois ser o primogênito no campo significava uma dose extra de trabalho. Mas teve a sorte grande de ter um pai e um avô letrados, que gostavam de poesia e de cultura; numa época que se a alfabetização era privilégio de poucos, imagine-se o hábito da leitura!!   Com o avô ele aprendeu a ler, consolidando seu aprendizado com a inesquecível professora Dona Henriqueta. Ainda passou um curto período residindo em Esperança, na casa de uma tia, tendo estudado no tradicional grupo escolar Irineu Joffily. Quando retornou tinha chegado ao seu grau máximo de estudo, a terceira série do Primário, solidamente alfabetizado, com  a curiosidade dos autodidatas  e já rabiscando versos.

Quando o poeta era adolescente  o rádio ainda não tinha se espalhado e todo mundo era apaixonado pela literatura de cordel, cujas histórias rimadas eram recitadas em voz alta nas tradicionais feiras livres nordestinas. A literatura de cordel, personificada nos folhetos, tinha um conteúdo didático e educativo, pois todos os temas do cotidiano, seja o cangaço, guerras e acontecimentos políticos, eram transformados em histórias rimadas que todos escutavam e decoravam!! Qualquer assunto poderia ser tornar tema de cordel se o poeta fosse bom. Nesse tempo, Picuí já tinha uma feira respeitável, mas ele conheceu uma das maiores, a famosa feira de Esperança, que rivalizava com a de Campina Grande em termos de grandeza e de sortimento. Tanto os recitais de cordéis ocorridos em  feiras, para o público em geral,  quanto na voz do seu avô,  para os parentes e amigos, causaram profundo impacto na alma do nosso poeta e decidiram sua vocação.

Também foi seu contemporâneo um dos grandes repentistas paraibanos, José Alves Sobrinho, que crescera no sítio Pedro e Paulo (Pedra Lavrada), na época, parte do município de Picuí, numa demonstração que o nosso chão pode expressar a cultura sertaneja. Essa importância da literatura de cordel na sua formação foi afirmada numa entrevista, um fato essencial para que surgisse o poeta que estava no seu espírito. Ouso afirmar que ele talvez tenha sido o último representante dessa tradição cultural que foi sufocada pela cultura de massa veiculada pela TV, rádio e, agora, as redes sociais.

Sua maioridade coincidiu com a maior guerra de todos os tempos, época sombria de Adolf Hitler e do nazismo, uma tremenda confusão da qual escapou por pouco, porque a guerra acabou quando ele já estava com data marcada para seguir para o conflito. Retornou à Picuí e casou rapidinho com dona Severina. Naturalmente ele foi ganhar a vida dirigindo caminhões, profissão que aprendeu ainda na adolescência com um tio. Por conta disso, residiu em Frei Martinho com a família por quase dez anos.  ​

A profissão de motorista libertou-o do trabalho cansativo do campo e ao mesmo tempo mostrou-lhe os aspectos das regiões brasileiras, sobretudo do Nordeste que lhes serviu de inspiração. Por isso é que todos esses anos como caminhoneiro foram de intensa atividade poética, pois ele sempre se inspirava com  as paisagens sertanejas que descortinava da boléia dos carros que dirigia. A maneira de como ele escrevia, nos momentos da pausa para descansar das longas jornadas pelas estradas do Brasil, era bastante curiosa, demonstrando que um talento inato pode enfrentar a força das horas trabalhadas e preenche-las de arte.

Depois de muitas décadas dirigindo caminhões seu coração enfraqueceu e ele parou de dirigir por longas distâncias. Passou ganhar a vida como taxista, atividade que contribuiu ainda mais para enriquecer sua poesia. Isto porque ele costumava levar médicos que iam atender os picuienses do interior do município, com a obrigação de esperá-los. Esse tempo ocioso, de espera, ele ocupava rabiscando versos que depois aperfeiçoava na sua maquina de escrever.

Um aspecto de sua personalidade que não pode ser esquecida é a capacidade que ele teve de estudar sozinho a ciência que ele amou, que foram as Letras. Além disso, enriqueceu seus conhecimentos gramaticais com a fala regional das pessoas simples e idosas que ele encontrava em Picuí e pelos caminhos que percorria; muitas vezes ficava pertinho, sem que os falantes o percebessem, de um lugar onde podia escutar as falas e anotava as palavras mais pitorescas e regionais, palavras estas que formaram um extenso arquivo, material para colocar nos versos “matutos” que ia tecendo.

Ele datilografava um a um os seus poemas. No início, costumava repassar seus escritos para seu filho fazer as correções, até o dia que recebeu uma gramática de presente. Ele empenhou-se tantos nos estudos gramaticais que logo se tornou autossuficiente nas correções que passou a fazer sozinho!! Impressionante era o seu amor pela língua portuguesa, que o levava a reler duas ou três vezes as lições.  Esse é um exemplo forte para todos que esperam muito de professores para evoluir em qualquer arte ou ciência.

Antônio Henriques Neto tem algo em comum com o grande escritor português José Saramago: ambos só publicaram seus livros em plena maturidade, depois dos cinquenta anos. A explicação do poeta, quando indagado porque não tivera a coragem de publicar seus versos desde cedo é que ele se julgava “sem cultura” e que seus versos eram “simples demais”!! Veja como são os sábios, sempre achando que “nada sabem” como falou um dia o grande Platão, quando sabem muito mais do que quase todo mundo. Foram necessários os conselhos e a persistência de Ronaldo Henriques para que permitisse publicar as suas “Poesias dispersas” (1979). Seis anos depois surgiu o “Poesia, Folclore e Nordeste” (1985) e, no alvorecer do século 21, a “Voz de um homem rude” (2001). Ele deixou uma obra póstuma (o quarto livro) que a família ficou incumbida da publicação, embora ele tenha guardado farto material poético no seu “quartinho” que certamente resultará em outros livros.

Depois que seus poemas foram publicados, sua reputação como homem de letras e de cultura foi crescendo ao longo dos anos, a ponto de se transformar na quintessência do picuiense de outrora, probo e honrado, que todos não se cansam de admirar. Teve o privilégio de ter o seu talento reconhecido em vida e a bênção de uma vida longa e produtiva. Participou  de programas de rádio dedicados à cultura sertaneja, e teve a glória de ver sua obra ser objeto de estudo em teses universitárias, deixando um cabedal de entrevistas, recitais e imagens, com a marca indelével de profundo conhecedor da cultura regional nordestina.

Pessoalmente, gosto muitos dos poemas dedicado à nossa terra amada Picuí; pouquíssimos poetas dedicaram tantos versos a sua terra natal como Antônio Henriques. Seu amor ao nosso chão era algo sublime. Estes poemas (“Meu Picuí!, “Falando à Picuí”, “Neste Picuí sertanejo”, “O berço que Deus me deu”..) são eternos e atemporais, capazes de emocionar a qualquer um que ame o seu torrão.

Também ele foi um grande contador de “causos”, seguindo uma tradição milenar que persiste na cultura nordestina. Sua boa memória ajudou a imortalizar personalidades singulares do passado, como Ataíde, Martin Doido, Emílio, Chicó Clementino, Aniceto Pereira, Pedro Quenga, Toinho dos Cordões e tantos outros. Ele mesmo fez parte desse anedotário ao receber a alcunha de “Tonho do Couros”, por ter indicado um comprador  a um homem que tinha uns couros de caprinos para vender, inocente sem saber que aquelas peles tinham sido furtadas !! O seu talento para contar histórias e “causos” pode ser conferido no áudio “causos e cordel” no youtube, uma homenagem do humorista Rossini Macedo a quem o poeta foi inspiração. Isso mostra que ele foi um poeta completo, pois fazia poemas, escutava as histórias, e expressava tudo com muita vivacidade.

Um filósofo escreveu que velho “é o homem que parou de aprender, tenha ele vinte ou oitenta anos”. E Antônio Henriques exerceu seu nobre ofício de fazer versos e de contar seus “causos” até quando sua lucidez permitiu, com o espírito jovem. Seu último poema foi a pedido de um amigo, falando do gado deste, cada rês com o seu nome; estava rabiscando os versos quando subitamente a caneta e papel caíram de suas mãos, e disse: “Já fiz a poesia”.

Seu último poema ficou incompleto, um protesto sutil da poesia eterna contra a transitoriedade da vida do poeta que cantou e imortalizou a sua terra.

Álisson Pinheiro é Natural de Picuí-PB, residiu também em Cubatí e Baraúna, tornando-o um autêntico filho do Seridó e do Curimataú Paraibano. É formado em Direito pela UFPB, com Pós-Graduação em Direito do Trabalho. Trabalha no TRT-AL onde vive na capital Maceió.