Picuí começou na Serra do Pedro

A história da vinda dos nossos antepassados para as proximidades da Serra do Pedro relaciona-se com o declínio da lavoura açucareira que se seguiu à expulsão dos invasores holandeses que levaram a lavoura açucareira para outros lugares e os preços caíram;  e houve a destruição de engenhos pela guerra. Estes fatores deixaram muita gente ociosa no litoral que viu como opção de sobrevivência ocupar as terras virgens do nosso Seridó e de outros lugares. Outro fato não menos importante foi o desenvolvimento natural das fazendas de gado localizadas nas margens do rio São Francisco, cem anos após a penetração dos colonos por aquelas bandas, formando uma geração adaptada à vida dura do interior.

Por tudo isso é que a crise no açúcar coincidiu com o grande fluxo de gente para o sertão, a partir da segunda metade do século XVII, sendo que no nosso Seridó a maré humana aumentou mesmo a partir de 1700, devido ao atraso acarretado pela grande guerra contra os indígenas que durou quase quinze anos.

Essa guerra, antes um massacre, é considerada o caso mais acabado de extermínio de indígenas ocorrido no Brasil colonial. Ela resultou no desaparecimento dos nativos, tanto pela violência,  quanto pela miscigenação, mas também está ligada à fundação de Campina Grande cujo núcleo teve início com o assentamento (obrigatório) de índios Ariús feitos prisioneiros. Desses primeiros habitantes ficaram, além dos genes que carregamos, os nomes familiares de rios, de cidades e de outros pontos geográficos, como Picuí, Timbaúba, Cumarú, Acauã, Quixodi, Quati, Cubati, Quinturaré, dentre outros que aprendemos desde crianças.

E os nosso ancestrais foram chegando com seus gados a partir de 1700. O local da origem destes primeiros povoadores e a vastidão do território devassado fez com que o historiador Capistrano de Abreu cunhasse as expressões “Sertão de Fora” e “Sertão de Dentro”. O “Sertão de Fora”, que incluía a região de Picuí e de todo o Seridó, foi ocupado por pioneiros chegados da região costeira, enquanto que o “Sertão de Dentro”, bem mais vasto, compreendia as terras mais afastadas do litoral, entre as quais o alto sertão paraibano, foi quase todo ocupado por gente provinda das margens do Velho Chico.

Os incipientes documentos existentes sobre estes primeiros seridoenses mostram que eram originários de Mamanguape, Igarassu, Olinda. Mas não faltaram os portugueses, como demonstram registros paroquiais de Acari e Caicó citados por  Dom Adelino Dantas. Os baianos predominaram nos “sertões de dentro”, mas alguns foram mais ousados como os Oliveira Ledo que fundaram até cidades (Campina Grande e Boqueirão) a partir das diversas fazendas fundadas no Cariri e até em Frei Martinho, onde hoje encontra-se a comunidade do Quinturaré.

Junto com a chegada dos colonos, veio o problema da posse da terra. Vale ressaltar que ter o título de propriedade no Brasil colonial não era tarefa fácil, pois o processo foi se burocratizando a ponto de ter que se viajar à Portugal para concretizar o registro legal ! O resultado foi que a elite, com recursos e com relações nos círculos do poder, era a única que conseguia terras após cumprir as exigências legais, tornando-se proprietária de direito. Enquanto isso, os colonos humildes, nossos ancestrais, sem influência política, enfrentando todos os perigos inerentes a uma terra virgem, iam ocupando o solo sem cuidar de outra garantia que não fosse a mera posse de fato.

Daí porque o consórcio formado por dona Isabel da Câmara, Antônio de Mendonça Furtado, Pedro de Mendonça Vasconcelos e Antônio Machado, tidos como os primeiros proprietários de terras na região de Picuí, certamente nunca esteve aqui para ocupar e povoar as datas que lhes foram concedidas. No máximo, teriam enviado agregados, escravos ou meeiros para firmarem a posse, sem que ocupasse por inteiro a imensa área recebida, em uma época que inexistia arame farpado.

Curioso é que a doação de terras em nossa região aconteceu de maneira contínua entre 1703 a 1824 !! Somente a não ocupação pelos sucessivos donos de direito explica essa multiplicação de doações no nosso minúsculo Seridó em tão largo espaço de tempo. Daí porque tem certo fundamento a tradição oral recebida por Heleno Henriques de que o fundador de sua família chegou aqui e escolheu as terras que quis na região do riacho da Volta, numa época que, em tese, as terras estavam todas doadas!

Diferentemente da distribuição de terras no oeste americano, onde cada colono não ficava com mais de 402 hectares, no Brasil um só proprietário poderia ganhar dez mil  numa única doação ! Isso originou o problema do latifúndio que persiste até hoje. Na nossa região, a divisão equitativa das propriedades em gerações sucessivas de famílias muito extensas foi diminuindo o tamanho das propriedades, a ponto de quase inexistir grandes fazendas herdadas no Seridó Paraibano.

Os conflitos envolvendo a posse da terra devem ter surgido e se agravado com o nascimento das primeiras gerações de picuienses legítimos, adaptados ao clima, analfabetos, com a liberdade que o pastoreio oferece, e, por isso, inaptos para viver no litoral açucareiro onde os orgulhosos Senhores de Engenhos agiam como potentados. Essa luta pela posse da terra certamente provocou conflitos e muitas mortes. Porém, seus detalhes trágicos foram esquecidos pelo peso dos séculos.

Assim foi que nossos ancestrais ocuparam uma terra cujos donos primitivos impuseram resistência desesperada; eles se mesclaram com as mulheres indígenas, construíram fazendas, destruíram matas, perseguiram as feras selvagens, multiplicaram-se mesmo com tantas dificuldades, e cá estamos nós desfrutando uma paz e um conforto que só se tornou possível pelo trabalho e esforço ininterrupto de quinze gerações de seridoenses da Paraíba, incluindo-se o seu Pedro que deve ter sido um posseiro humilde estabelecido no sopé da famosa serra que ganhou seu nome, considerada por muitos como o lugar mais velho da terra!!

Por Álisson Pinheiro