O ANTIGO MERCADO DE PICUÍ QUE VIROU PÓ

À memória do nosso primeiro prefeito, o coronel Manoel Lucas, que foi um grande realizador.

As edificações ou benefícios prestados por uma geração facilmente são esquecidos pelas linhagens que se sucedem. As pessoas simplesmente nascem e crescem após aquela construção tão útil feita pelos antepassados, e simplesmente não se recordam ou não conhecem os fatos e necessidades que a fizeram ser erguida. Porém, é uma grande responsabilidade zelar e cuidar destas construções passadas, porque pertencem tanto aos que virão depois de nós quanto aos que vivem no presente. Daí por que não temos o direito de danificar essa herança, privando as gerações passadas do seu legado que temos o dever de preservar.

Essa verdade ancorada no bom senso nem sempre é lembrada, porque os picuienses do presente tem dilapidado ou simplesmente destruído o patrimônio arquitetônico de nossa amada cidade. E dentre todas as construções históricas de nossa região que foram arrasadas, nenhuma foi tão emblemática para uma população inteira quanto o antigo mercado, que todos consideram um dos mais belos que já existiram na Paraíba. Se estivesse de pé, seria centenário, já que foi concluído em 1908 na gestão do primeiro prefeito da cidade, o coronel Manoel Lucas.

Mais de vinte anos antes (1886), Irineu Joffily chamou a atenção sobre Picuí como centro comercial movimentado. É claro que em dado momento do crescimento da “urbe”, surge à necessidade do mercado, tido como marco consolidador da hegemonia da sede do município sobre os arredores, cuja população tem necessidade de abastecimento. Sem a construção desse espaço público o desenvolvimento da vida social de Picuí ficaria certamente comprometido, pois seus imensos espaços e arcadas facilitaram a confusão e a mistura que trouxeram vitalidade e crescimento para nossa terra amada.

E para a Picuí de cem anos atrás, um mercado público era muito necessário, para que fossem substituídas as construções precárias e os espaços livres que costumam abrigar o comércio típico de feiras nas cidades humildes, cujo marco era a “Venda Velha”, a maior casa comercial da Picuí de outrora. Mas esse não era o caso de Picuí, cidade que foi abençoada por uma fonte de água constante (a Maricota), pela imensa vazante do rio Acauã que trazia boa produção agrícola e por uma localização privilegiada, na margem do antigo caminho que ligava o Brejo ao Seridó, fatores que fazem uma cidade crescer rapidamente.

Por tudo isso é que Picuí teve o privilégio de ter um mercado suntuoso na mesma época de cidades importantes como Caicó (1908)  e Araruna (1909). Os antigos mercados destas duas cidades ainda existem e foram conservados, enquanto que o nosso tornou-se pó. É um fato que nenhum deles é superior em tamanho e imponência ao antigo mercado público de nossa terra, com suas linhas arquitetônicas ecléticas, onde se destacavam as arcadas mouriscas e fachadas no estilo art deco, introduzidas na primeira reforma que ocorreu entre os anos 1936/1937, o auge desse estilo arquitetônico que tinha, entre suas características, o uso de formas geométricas, linhas circulares ou retas estilizadas, traços marcantes na parte externa do edifício onde se vendiam as carnes.

Além disso, o nosso antigo mercado foi construído numa posição muito central, que facilitou a sociabilidade dos picuienses, tanto que se inseriu na história e na cultura de nossa gente. Ele era  o lugar onde gravitava a vida social de outrora, um espaço público por excelência, por onde passava toda a população, independentemente da classe social. O nosso mercado foi muito mais do que um lugar de comércio, porque também se tornou um local recreativo, onde se apresentavam e festejavam nossos antepassados nos folguedos juninos ou nos tradicionais leilões da Festa de São Sebastião.

A robusteza de suas paredes e vigas demonstravam as grandes qualidades dos nossos antepassados, que foram capazes de concluir essa edificação de uma solidez que marcou os que o conheceram e que se serviram dele. Mostra que a opção pelo coronel Manoel Lucas como o primeiro prefeito de nossa terra não foi alheatória, mas sim uma escolha consciente do cidadão mais capaz naquele momento. Também é uma mostra da prosperidade de nossa cidade, pois o mercado de Araruna, muito menor, custou trinta contos de reis, o que era muito dinheiro. Uma edificação imensa e bela como era o nosso mercado só se obtém como resultado do esforço inteligente, numa comprovação de que as grandes qualidades não faltaram a nossos antepassados.

Para mim, enquanto criança, o mercado era o cenário de muitas brincadeiras, porque me diverti muito no seu interior e aliviava o cansaço sentando-se em sua ampla escadaria. Também costumava aparecer por lá acompanhado de minha mãe nas compras semanais. Muito mais do que isso,  ele significou a aquisição da casa própria de minha família, pois foi a partir do arrendamento do bar existente no corredor que interligava as duas partes do edifício que meu pai juntou o dinheiro necessário para esse sonho de todas as famílias. Posteriormente, depois que passamos a residir em Cubati, conheci-o nas madrugadas, enquanto ficava esperando o ônibus que partiria em pouco tempo, não sem tomar café com bolo que era vendido na lanchonete improvisada num dos seus múltiplos recantos (penso que todos com mais de 40 anos que estiverem lendo esse texto tem boas lembranças para recordar do antigo mercado).

Era um edifício de construção tão sólida que sequer podia imaginar que ele pudesse desaparecer completamente, só restando um monte de escombros, do jeito que o encontrei, em 1983, quando voltei a Picuí para desfrutar as costumeiras férias escolares. Encontrei o lugar do antigo e amado mercado em reboliço, como uma terra arrasada.

Os anos se passaram e o antigo mercado mergulhou no mundo do mito e da lenda. Muitos da nova geração picuiense certamente devem se perguntar o que fez o prefeito da época ordenar demolição do antigo mercado se ele era completamente integrado a nossa paisagem urbana. Nos anos que se seguiram foram surgindo versões para esse crime contra o nosso patrimônio bem inverossímeis. Uma destas versões até parece piada pronta, girando numa suposta confusão com o termo “tombar”, dito por doutor Felipe e por um ministro de Estado, que foi interpretado pelo prefeito da época como “derrubar”, e não “preservar” como deveria ser.

A explicação que considero mais plausível é que a elite picuiense da época, cujos maiores expoentes eram o doutor Felipe e o grupo político liderado por Severino Gomes, acreditava piamente que o local onde estava situado o mercado era o ideal para a construção da agência do Banco do Brasil. Naquele período de inflação imensa os bancos gozavam de um prestígio infundado, afinal eram os maiores beneficiários de nossa economia enlouquecida. Além do mais, o velho mercado, quase cinquenta anos após sua última reforma, estava com o teto danificado, o piso cheio de falhas, as paredes encardidas e a longa escadaria bem danificada. É certo que custaria muito dinheiro reformá-lo, num tempo de verbas curas, de inexistência de uma política cultural no Brasil, nem um Ministério Público preocupado com o patrimônio histórico da cidade.

E o resultado foi que o edifício mais importante de nossa terra, que demorou anos para ser construído, foi posto abaixo em poucos dias, foi reduzido a pó, misturado as nossas próprias cinzas. E como se fosse pouco, passaram-se muitos anos até que fosse providenciada uma nova utilidade para o espaço. Se tentaram construir a sede do Banco do Brasil no local, essa é uma outra história que prefiro nem saber, porque foi um plano fracassado.

Que esse dano irreparável sirva de aviso para que as novas gerações de picuienses tomem a iniciativa de preservar o patrimônio que ainda nos resta, como os antigos sobrados e casas grandes das ruas Ferreira de Macedo, São Sebastião, João Pessoa e 24 de Novembro. Todo esse casario forma o cenário que acompanha as gerações de picuienses desde o final do século XIX, e não pode em hipótese alguma ser destruído ou descaracterizado, por ser um patrimônio imemorial de todos nós que nascemos e crescemos nessa boa terra.

Não podemos perder de vista que a opção de preservar ou não os edifícios dos tempos passados não é uma questão de conveniência ou de simpatia, pois não temos qualquer direito de tocá-los. Eles não são nossos, porque pertencem em parte àqueles que os construíram, e em parte a todas as gerações de picuienses que nos sucederão. Penso que àquilo que nós mesmos construímos temos a liberdade de demolir, mas o direito sobre aquilo pelo qual outros homens deram sua força e riqueza e vida para realizar, não expira com a morte deles, devendo ficar intocado. Não temos o mínimo direito de dispor daquilo que ele nos foi legado pelos antepassados. Certamente nossos filhos, netos e bisnetos irão lamentar por terem sido prejudicados pela destruição de edifícios dispensados levianamente, em nome da nossa presente conveniência, do mesmo jeito que eu estou me lamentando agora pelo que fizeram nossos pais e avós, destruindo o antigo mercado.

Jonn Ruskin, um inglês sábio que foi o primeiro a alertar sobre a importância da preservação do patrimônio histórico-arquitetônico, fez esta declaração que todos devem saber para agir:

“Toda  a ação humana ganha em honra, em graça, pela sua consideração pelas coisas que virão. Assim, quando construímos, lembremo-nos que construímos para sempre. Que não seja para o deleite presente, nem para uso presente, apenas; que seja uma obra que nossos descendentes nos sejam gratos por ela; que nós pensemos, enquanto colocamos pedra sobre pedra, que virá um tempo em que aquelas pedras serão consideradas sagradas porque nossas mãos as tocaram, e que homens dirão ao contemplar a obra e a matéria trabalhada: “Vejam”! Nossos pais fizeram isso por nós!”.

Alisson Pinheiro